Diário de Campo
Parteiras e a Espiritualidade: Saberes Tradicionais e Práticas do Cuidado à Vida entre os Tembé, pescadores de Itapuá e quilombolas do Umarizal
Pesquisa de campo percorreu mais de 600 km na Amazônia Paraense — O trabalho de conclusão de curso do licenciando Renilson de Brito Fagundes, apresentado à Universidade do Estado do Pará (UEPA), investiga as práticas de partejar em três grupos sociais tradicionais: a aldeia Ytuaçu Tembé (Terra Indígena Alto Rio Guamá), o quilombo Umarizal (Baião/PA) e a ilha de Itapuá (Vigia/PA). A pesquisa, orientada pelo Prof. Dr. Manoel Ribeiro de Moraes Junior, obteve conceito 10 e destaca a espiritualidade como elemento central no cuidado à gestação, parto e pós-parto.
“Nós, mulheres, somos como uma flor; quando chega a hora, ela se abre para a criança nascer.”
— parteira pedagoga, quilombo Umarizal
A etnografia multissituada ouviu parteiras, pajés, benzedeiras e erveiras. Na aldeia Ytuaçu, uma parteira de 64 anos, também pajé, relatou que o dom de partejar é concedido pelos encantados — seres das profundezas das águas e da terra. Entretanto, com a chegada do Subsistema de Saúde Indígena (SASISUS), ela foi orientada a interromper os partos tradicionais. Hoje atua como Agente Indígena de Saúde e ainda realiza o “puxamento de barriga” e benzeções, práticas essenciais para as gestantes da comunidade.
“Eu só não faço o parto das mulheres daqui porque o pessoal não aceita. […] O médico faz a ultrassonografia, e a data não bate com a que a gente está acostumada. Aí, como dá errado, os médicos acabam tirando, achando que estão certos.”
— parteira Ytuaçu Tembé (diário de campo, nov. 2023)
No quilombo Umarizal, às margens do rio Tocantins, a pesquisa encontrou a parteira de mil partos (79 anos), devota de São José e do Anjo da Guarda, que permanecia até oito dias na casa da parturiente. Outra parteira, aqui chamada de “pedagoga”, de 54 anos, aprendeu o ofício com as mulheres mais velhas da família e mantém o saber das garrafadas e do cuidado com o umbigo — as crianças por ela assistidas são chamadas de filhos do umbigo, vínculo que dura a vida inteira.
Tembé (Ytuaçu)
Parteira-pajé de 64 anos. Enterro da placenta no solo, chá do cordão umbilical, relação com os encantados. Conflitos com religiões evangélicas e pressão do DSEI.
Quilombo Umarizal
Parteira de mil partos (in memoriam), “pedagoga” e mestra das ervas. Uso de barbatimão, amor-crescido, pinhão-roxo. “Filhos do umbigo” e devoção a santos.
Ilha de Itapuá
“Aventureira”, 74 anos, aprendeu partejar com enfermeira Olgarina. Realizou partos domiciliares, usa óleo de andiroba, puxação de barriga. Fé em Deus e Santana.
Em Itapuá, a “aventureira” (como se autonomeia) aprendeu a técnica de partejar na década de 1970 com a enfermeira Olgarina. Ela nunca prometia realizar partos, mas era procurada pelos maridos quando o trabalho começava. Até hoje orienta sobre resguardo de 45 dias, uso de hortelã para cólicas do bebê e a importância do pré-natal. Lamenta que as jovens prefiram o hospital e denuncia negligências em maternidades: “o cordão estava enrolado, a criança nasceu sem oxigênio e morreu depois de sete meses”.
“Não, sabe quem é que eu acredito? Em Deus, ele que é a força, ele que dá coragem pra gente. […] Rezava para Jesus, rezava para Santana, que é advogada das mulheres gestantes, e pedia força para o Espírito Santo.”
— Aventureira, Itapuá (nov. 2024)
A pesquisa também inventariou as plantas medicinais mais usadas: cajueiro, barbatimão, abuta, hortelã, manjericão, andiroba, ucuuba, cajazeira, pinhão-branco, entre outras. Muitas parteiras mantêm quintais agroflorestais e participam de encontros como o Programa Bem Viver do DSEI-Guamá-Tocantins, onde rituais de pajelança e homeopatia são compartilhados.
Fonte: Leonardo Silveira Santos / set. 2024
Ao final do trabalho, o autor reflete sobre o que chama de “parto civilizatório violento” — a imposição do modelo hospitalar que desconsidera rituais como o enterro da placenta, a puxação de barriga e a presença da parteira como segunda mãe. Em diálogo com autores como Mircea Eliade (O sagrado e o profano), Pierre Bourdieu (poder simbólico) e Michel Odent (coquetel de hormônios do amor), a pesquisa mostra que as parteiras são guardiãs de um conhecimento que integra corpo, espírito e natureza.
“Agora, nos hospitais, eles simplesmente tiram tudo e jogam fora. O vínculo entre o feto e a placenta não se rompe com o nascimento.”
— parteira Ytuaçu sobre o descarte da placenta
A banca examinadora, composta pelo Prof. Dr. Manoel Ribeiro de Moraes Junior (orientador), Prof. Me. Jose Antônio Mangoni e os doutorandos Ozian de Sousa Saraiva e Leonardo Silveira Santos, aprovou o trabalho com nota máxima, destacando a relevância da memória das parteiras e a urgência de políticas públicas que integrem esses saberes ao SUS e ao Subsistema de Saúde Indígena.
Ervas e plantas citadas pelas entrevistadas:
- Barbatimão
- Amor-crescido
- Pinhão-roxo / Pinhão-branco
- Andiroba (óleo)
- Ucuuba
- Cajueiro (casca)
- Abuta
- Hortelã
- Manjericão
- Canela
- Virola
- Cajazeira
O estudo conclui que “valorizar as parteiras é uma luta vital pela preservação de modos de vida, pelos direitos humanos de um parto verdadeiramente humanizado e pela construção de um sistema de saúde inclusivo e respeitoso”. O trabalho está disponível na biblioteca do CCSE/UEPA e integra a linha de pesquisa “Linguagem da Religião na Amazônia”.